Trilhões em risco: como o atraso de The Line pressiona o caixa saudita
Fundo de Investimento Público (PIF) – responsável por bancar o projeto The Line, congelou as obras recentemente após admitir que os custos saltaram de US$ 1,6 trilhão para US$ 8,8 trilhões, um rombo que ameaça a capacidade de investimento do reino em plena desaceleração dos preços do petróleo.
- Em resumo: A megacidade de 170 km teve a construção interrompida e já gerou prejuízo de US$ 8 bi ao PIF.
Do anúncio televisivo à pausa forçada
A cidade linear foi apresentada em 10 de janeiro de 2021, em transmissão ao vivo pela TV estatal saudita, como peça-chave do programa Vision 2030. O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman prometia abrigar 9 milhões de pessoas sem carros nem emissões. Hoje, apenas 2,4 km de fundações estão erguidos.
Projeção interna de 2025 elevou o custo total para US$ 8,8 tri, quase nove vezes o PIB anual da Arábia Saudita.
Combustível barato, cofres vazios
O barril saudita fechou 2025 em US$ 55,60, bem abaixo dos US$ 96 necessários para zerar o déficit fiscal, segundo cálculos da Bloomberg. A dependência do petróleo torna cada dólar perdido no Brent um golpe direto nos recursos do PIF, que já viu seus ativos encolherem após contabilizar prejuízo bilionário com o NEOM.
A pressão se estende ao mercado global: grandes fundos monitoram a situação porque a Arábia Saudita responde por cerca de 13% da oferta da Opep+. Caso o projeto precise de novas captações, o risco-país pode subir, elevando o custo de emissão de títulos soberanos e encarecendo financiamentos para todo o Golfo.
De laboratório urbano a alerta de governance
Auditoria interna, revelada pelo Wall Street Journal, apontou “manipulação deliberada” de dados. O episódio reacende a discussão sobre transparência em mega-projetos estatais e coloca em xeque a governança do Vision 2030, plano que busca diversificar a economia saudita para além do petróleo.
Além do rombo financeiro, ONGs denunciam remoções forçadas da tribo Huwaitat e impactos ambientais: a muralha espelhada de 500 m criaria um bloqueio à migração de animais no deserto, tema que ainda não tem solução técnica publicada.
O que vem a seguir para investidores?
Consultorias contratadas pelo PIF prometem até março uma versão “enxuta”: entregar só 2,4 km e um estádio para a Copa de 2034, com 300 mil moradores até 2030. Mesmo assim, analistas ouvidos pela Reuters calculam que o trecho exigirá ao menos US$ 120 bi adicionais.
O que você acha? A Arábia Saudita conseguirá atrair capital externo para salvar The Line ou o projeto virará o maior elefante branco do século? Para acompanhar a repercussão no mercado de energia e infraestrutura, acesse nossa editoria especializada.
Crédito da imagem: Divulgação / NEOM